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Um dia após tropas americanas invadirem o Palácio de Miraflores, em Caracas, e levarem à força o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou o tom contra a sucessora, Delcy Rodríguez, recém-empossada presidente interina da Venezuela. Em entrevista por telefone, Trump afirmou que Rodríguez pagará “um preço muito maior” que o de Maduro caso “não faça a coisa certa”, em uma mudança brusca de discurso em relação ao dia anterior, quando havia declarado que a nova presidente estaria disposta a “fazer o necessário para tornar a Venezuela grande novamente”, incluindo a abertura da exploração de petróleo às empresas americanas.

A retórica dura parece ter produzido efeito imediato. Na noite seguinte, Delcy Rodríguez publicou nas redes sociais uma carta aberta em tom cauteloso, na qual convidou o governo dos Estados Unidos a colaborar em uma “agenda de conciliação”. Segundo ela, a Venezuela “deseja viver sem ameaças externas” e buscará uma relação respeitosa e equilibrada com Washington. No sábado, no entanto, a presidente interina adotou postura mais firme, afirmando que o país está “pronto para defender seus recursos naturais”.

As declarações agressivas de Trump não se limitaram à Venezuela. Falando com jornalistas a bordo do avião presidencial, ele disse acreditar que o governo cubano “parece pronto para cair”, sustentando que Havana só se mantém graças ao apoio de Caracas. Trump também atacou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, acusando-o de gostar de “fabricar cocaína e mandá-la para os EUA”, e acrescentou que “ele não vai fazer isso por muito tempo”.

Enquanto o presidente endurecia o discurso, o secretário de Estado, Marco Rubio, buscava reduzir temores. Em uma série de entrevistas, Rubio negou que os Estados Unidos pretendam “governar” a Venezuela, afirmando que Washington manterá o bloqueio a petroleiros sancionados, mas sem qualquer envolvimento direto na administração do país. Segundo ele, a estratégia é usar as sanções como forma de pressão para que o governo venezuelano atenda às exigências da Casa Branca. As explicações visam tranquilizar parte do eleitorado de Trump, especialmente o movimento MAGA, que teme uma ocupação prolongada em território estrangeiro.

Maduro e Cilia Flores devem ser levados ainda hoje a um tribunal federal em Nova York, onde responderão a acusações de tráfico de drogas e outros crimes. Em condições normais, o julgamento poderia levar até um ano, mas a defesa deve questionar a legalidade da prisão, considerada por críticos como um sequestro, e levantar a possibilidade de imunidade por ele ter exercido o cargo de chefe de Estado.

Na Venezuela, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, confirmou que integrantes da guarda pessoal de Maduro morreram durante o ataque de soldados de elite dos Estados Unidos ao Palácio de Miraflores. Sem divulgar números oficiais, estimativas apontam que até 80 pessoas, entre civis e militares, tenham morrido durante a ofensiva e os bombardeios. Em pronunciamento, Padrino declarou que as Forças Armadas reconhecem Delcy Rodríguez como presidente interina e pediu que a população retome as atividades cotidianas.

Analistas destacam que, apesar do forte impacto simbólico da prisão de Maduro, a estrutura de poder na Venezuela permanece praticamente intacta. Figuras centrais do chavismo, como Delcy Rodríguez, seu irmão Jorge Rodríguez, o ministro do Interior Diosdado Cabello e o próprio Vladimir Padrino, continuam formando o núcleo político que governa o país há décadas.

Para Juan S. Gonzalez, a imagem de Maduro sob custódia nos Estados Unidos “cria a sensação de encerramento”, mas não representa o fim do conflito entre Washington e Caracas. “É o fim do começo e o início de uma fase mais difícil e perigosa”, afirmou. Já o jornalista Pedro Doria classificou a operação como “uma ação imperialista”, comparando-a à lógica usada pela Rússia ao invadir a Ucrânia, ao tratar determinada região como área de interesse direto.

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