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Após meses de desgaste e uma reunião que avançou até o início da noite desta quinta-feira, o ministro Dias Toffoli deixou a relatoria das investigações sobre o Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF). O substituto, definido por sorteio, será o ministro André Mendonça, que decidirá se o caso permanece integralmente na Corte ou retorna, total ou parcialmente, à primeira instância.

Ao longo do dia, Toffoli foi alvo de forte pressão para deixar o comando do inquérito — e até mesmo para se afastar do Supremo — após a divulgação de informações de um relatório da Polícia Federal sobre conversas entre o ministro e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Em nota, o STF informou que Toffoli, “considerados os altos interesses institucionais”, solicitou a redistribuição do caso. O tribunal afirmou ainda que não há fundamento para arguição de suspeição, reconheceu a validade de todos os atos praticados pelo ministro e manifestou apoio pessoal ao magistrado, destacando a inexistência de impedimento formal.

Acordo interno e resistência superada

A saída foi resultado de um acordo costurado durante a reunião entre os ministros. Segundo relatos, Toffoli percebeu que não havia maioria para sua permanência na relatoria. Inicialmente resistente, acabou cedendo diante da avaliação de colegas de que a manutenção do caso sob sua condução prolongaria pressões internas e externas sobre a Corte.

Sua última decisão como relator foi determinar que a Polícia Federal encaminhasse ao seu gabinete os relatórios sobre o Banco Master, incluindo dados extraídos dos celulares de Vorcaro, que haviam sido entregues no início da semana ao presidente do STF, Edson Fachin.

Toffoli também divulgou nota admitindo ser sócio da empresa Maridt, que recebeu pagamentos do Banco Master na venda de participação em um resort controlado por seus irmãos.

Patrimônio e questionamentos

O episódio ganhou novos contornos com a divulgação de informações sobre o patrimônio imobiliário do ministro. Imóveis registrados em Brasília em nome de Toffoli, de sua filha e de sua ex-mulher somam cerca de R$ 26,5 milhões em valor de mercado. A aquisição mais recente envolve um apartamento de alto padrão comprado em fevereiro por R$ 2,5 milhões, sem registro de financiamento bancário.

Procurado, o ministro afirmou, por meio de assessoria, que todas as receitas e patrimônios estão devidamente declarados e aprovados nas declarações anuais à Receita Federal.

Reflexos políticos

A crise ultrapassou os limites do Judiciário e teve impacto no ambiente político e eleitoral. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que indicou Toffoli ao STF em 2009, teria dito a aliados que o ministro estava desgastando a imagem da Corte e deveria se afastar do caso.

Pela manhã, Lula reuniu-se informalmente com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Integrantes do Planalto avaliam que a insistência de Toffoli em permanecer no caso contaminava o governo e poderia impactar a campanha à reeleição.

Na oposição, o senador Flávio Bolsonaro foi orientado a evitar manifestações públicas sobre o tema. Segundo interlocutores, críticas ao Supremo poderiam tensionar ainda mais a relação da família Bolsonaro com a Corte, especialmente no momento em que se discute a eventual transferência de Jair Bolsonaro para prisão domiciliar.

Avaliações e bastidores

Analistas apontam que o episódio expôs fissuras institucionais. A jornalista Eliane Cantanhêde avaliou que o STF buscou uma “solução salomônica” ao formalizar a saída como iniciativa do próprio ministro, mas considerou que o desgaste já estava consolidado.

Malu Gaspar destacou que o caso revelou desconfiança entre Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Supremo, ao mencionar que o procurador-geral só teve acesso formal ao relatório após detalhes já terem vindo a público.

Já Vinicius Torres Freire descreveu um ambiente de apreensão em Brasília, com temor de uma “lavajatização” do cenário político, marcada por vazamentos e potenciais delações.

A redistribuição do caso ao ministro André Mendonça encerra um capítulo da crise, mas não elimina os questionamentos que continuam a pairar sobre o Supremo e suas relações institucionais em um momento de elevada tensão política.

Jerônimo acompanha a saída do bloco Olodum e abertura do Carnaval no Pelô, no Pelourinho, nesta sexta-feira (13)

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