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A política dominou o tom da abertura oficial da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), nesta segunda-feira (10), em Belém (PA). Em seu discurso mais enfático até agora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou de lado o tom diplomático da Cúpula de Líderes da semana anterior e fez duras críticas a potências mundiais que não enviaram representantes de alto nível ao evento — sem citar diretamente Estados Unidos e China.

Lula também condenou o financiamento de guerras em detrimento de ações climáticas. “Se os homens que fazem guerra estivessem aqui, perceberiam que é muito mais barato colocar US$ 1,3 trilhão para enfrentar um problema que mata do que gastar US$ 2,7 trilhões com guerras, como fizeram no ano passado”, afirmou o presidente, sob aplausos.

O secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU, Simon Stiell, reforçou o apelo por medidas concretas para reduzir as emissões de carbono. Segundo ele, a urgência deve prevalecer sobre as promessas. “Nenhuma nação tem como arcar com isso enquanto desastres climáticos começam a impor prejuízos de dois dígitos no PIB dos países”, alertou.

A ausência de lideranças americanas gerou reações dentro e fora dos Estados Unidos. Em sua rede social Social Truth, o presidente Donald Trump ironizou as obras de infraestrutura realizadas em Belém para sediar o evento, chamando-as de “escândalo” e acusando o Brasil de “destruir a Amazônia” para construir uma rodovia de quatro faixas. Já o governador da Califórnia, Gavin Newsom, presença de destaque do Partido Democrata, criticou a falta de representatividade americana na COP30. “A razão pela qual estou aqui é pela ausência de liderança vinda dos Estados Unidos. Esse vácuo é, francamente, de cair o queixo”, disse, durante um simpósio em São Paulo.

O primeiro dia da conferência registrou 111 metas climáticas (NDCs) entregues pelos países-membros — o equivalente a 71% das emissões globais de gases do efeito estufa, de acordo com a plataforma Climate Watch. O número cresceu após a adesão dos 27 países da União Europeia, mas a maioria das nações ainda não cumpriu o prazo oficial para atualização das metas, estendido de fevereiro para setembro.

Um documento assinado por 51 relatores especiais da ONU cobrou a implementação urgente e justa dos compromissos climáticos. O texto alerta que a credibilidade da COP30 depende de resultados concretos e propõe limitar a presença de lobistas de combustíveis fósseis, além de garantir transparência e participação da sociedade civil.

Em meio ao debate, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, defendeu as pesquisas da Petrobras na chamada Margem Equatorial, região da costa amazônica com potencial petrolífero. “O petróleo brasileiro é menos emissor. Encerrar as refinarias pioraria a condição ambiental do planeta”, argumentou.

Paralelamente, um relatório divulgado pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur) revelou que a crise climática deslocou 250 milhões de pessoas na última década, o equivalente a 70 mil por dia. O estudo aponta que os refugiados enfrentam, além dos conflitos, os efeitos de calor extremo e da elevação do nível do mar, fenômenos que agravam as vulnerabilidades humanas em escala global.

Entre tensões políticas, alertas científicos e cobranças por ação imediata, a COP30 começou em Belém com um recado claro: o tempo para adiar decisões acabou, e o planeta não pode mais esperar.

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