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CompartilheCompartilhe 0 Tensão entre Laranjeiras e Planalto: operação no Rio provoca confronto político e institucional Enquanto os corpos ainda eram recolhidos das ruas e vielas das favelas da Zona Norte, outro embate ganhava força — desta vez, entre o governador Cláudio Castro (PL) e o governo federal. O dia seguinte à operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, que deixou 64 mortos, foi marcado por uma troca de acusações e tentativas de transferência de responsabilidade. Em meio ao caos, Castro afirmou que Brasília se recusou a apoiar a operação, negando o envio de blindados das Forças Armadas para reforçar a invasão das áreas dominadas pelo Comando Vermelho (CV). A declaração, porém, foi desmentida pelos ministérios da Defesa e da Justiça, que negaram ter recebido qualquer pedido formal de apoio. Diante da repercussão, o governador tentou recuar. Em telefonema à ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, alegou ter sido mal interpretado. “Gleisi, quem está falando isso não ouviu minha fala”, justificou Castro, tentando conter a crise política que se espalhava nas redes sociais e alimentava narrativas da extrema direita em defesa de sua gestão. As explicações, no entanto, não convenceram o Planalto. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, fez as críticas mais duras ao governador fluminense, cobrando responsabilidade institucional. “Se ele sentir que não tem condições, ele tem que jogar a toalha e pedir GLO ou intervenção federal”, afirmou Lewandowski, referindo-se à possibilidade de uma nova intervenção federal, como a decretada em 2018, sob o governo Michel Temer, quando o general Braga Netto assumiu o controle da segurança pública no estado. Diante do impasse e da escalada de tensões, o governo federal decidiu agir de forma institucional. Após uma reunião de cerca de duas horas no Palácio do Planalto, convocada pelo presidente em exercício, Geraldo Alckmin, ficou definida a formação de uma comitiva para dialogar com o governo do Rio. A delegação incluirá Lewandowski, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, e o diretor-executivo da Polícia Federal, William Marcel Murad. O objetivo é estabelecer linhas de cooperação entre os dois governos e formular uma resposta política e operacional à crise de segurança. Integrantes do Planalto avaliam que o episódio pode impulsionar o debate da PEC da Segurança no Congresso, que prevê novas regras de coordenação entre União e estados nas políticas de combate ao crime organizado. Enquanto Brasília tenta conter o fogo cruzado político, a repercussão da operação segue dominando o debate público. O colunista Bernardo Mello Franco avaliou que o governador “renovou a aposta no bangue-bangue”, destacando a tentativa de capitalizar politicamente a tragédia: “Com a popularidade na lona e o futuro político incerto, Cláudio Castro renovou a aposta no bangue-bangue. Na legenda do vídeo que festejou a matança, ele emulou Donald Trump ao falar em ‘narcoterrorismo’ e prometeu continuar ‘enfrentando de frente (sic) os vagabundos’.” Já Mariliz Pereira Jorge, em tom mais reflexivo, escreveu: “A violência no Rio parece uma chuva de verão. Quando engrossa, as pessoas evitam sair de casa para não ficarem presas num alagamento, mas depois a vida volta ao normal. Pouca gente faz de conta que se importa com a parte esquecida pela sociedade, aquela que mais sofre com o abandono e a insegurança. Todos à espera de que a chuva passe, os corpos sejam recolhidos e o sangue seque.” A guerra nas favelas, agora, avança também para os bastidores do poder, transformando uma tragédia social e humana em mais um capítulo da disputa política brasileira.
Operação policial no Rio deixa 64 mortos e expõe escalada da violência nas favelas da Penha e do Alemão
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