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CompartilheCompartilhe 0 Segundo a fundadora Cláudia Rosa, 51, há três anos a banda nasceu na comunidade da Roça da Sabina, em Salvador. É o primeiro grupo de Samba Junino formado majoritariamente por mulheres. De acordo com a musicista, a iniciativa tem o propósito de destacar a presença e a liderança das mulheres dentro da tradicional manifestação cultural baiana. “O Samba Junino Gira D’elas surgiu a partir de pesquisas que mostraram a presença constante das mulheres no Samba Junino, mas raramente em posições de destaque. É hora de afirmar que também somos protagonistas, profissionais, compositoras e musicistas, além de fortalecer e salvaguardar esse patrimônio imaterial”, afirma Cláudia. Atualmente, o grupo é composto por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, reunindo 11 musicistas, um homem cisgênero e um homem trans, além de uma rede de apoio formada por mais de 60 mulheres em um grupo de WhatsApp. Partilhar Os ensaios acontecem na Roça da Sabina, comunidade periférica localizada ao lado do bairro da Barra, uma das áreas mais valorizadas de Salvador. A escolha do território estimula os laços comunitários e movimenta o comércio local, segundo Cláudia. “Manter nossas atividades na Roça da Sabina é uma forma de valorizar o lugar onde o grupo nasceu, fortalecer os vínculos sociais e contribuir para a movimentação da economia da comunidade”. O samba do Gira D’elas destaca canções sobre a liderança feminina na sociedade – Foto: Naiade Bianchi / Entre Becos 2026 A seleção musical da banda destaca-se por incentivar a autoestima feminina. Além disso, o uso de materiais recicláveis dá origem à criação de instrumentos musicais. “O nosso repertório resgata grupos como Fogueirão, Samba Tororó e Samba Escorpius. Criamos o Girachuá, instrumento feito de materiais recicláveis, ensinado em oficinas abertas. Atendemos amantes do samba, moradores, crianças, jovens, idosos e pessoas em situação de rua”, ressalta a fundadora. O principal instrumento da banda, o Girachuá, um pandeiro sem couro e com som de chocalho, passou a ser ensinado nas oficinas promovidas na comunidade. Das quatro oficinas realizadas, 150 alunos já participaram. “Com oficinas, troca de saberes e a criação do Girachuá, incentivamos criatividade, reaproveitamento e valorização da cultura popular. Já inspiramos a criação de grupos e coletivos com recorte de gênero e diversidade no samba junino e em outras expressões culturais. Mulheres que passaram pelo Gira D’elas fundaram blocos, rodas e iniciativas educativas. Estamos espalhando a semente de que a cultura é mais viva e justa quando todos e todas têm espaço para brilhar”, concluiu. A Gira D’Elas é um dos mais de 22 grupos que integram a Liga do Samba Junino de Salvador, que foi fundada em 16 de dezembro de 2011 e já caminha para seus 15 anos de trajetória. Segundo a presidente e diretora, Renata Rodrigues, a entidade atua na promoção, preservação e no fortalecimento do Samba Junino, apoiando a divulgação dos grupos, a realização de eventos e a captação de recursos para fortalecer o trabalho dos artistas. “Atuamos como um pilar fundamental na preservação das tradições juninas da capital baiana, contribuindo para que essa rica herança cultural seja reconhecida, valorizada e transmitida às futuras gerações. Nossa visão é consolidar-nos como referência nacional e internacional na salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, com foco no Samba Junino, além de atuar como agente de transformação social por meio da cultura e da educação”, destacou a presidente. O instrumento percussivo, Girachuá, produzido pela banda induz a refletir sobre o cuidado com o meio ambiente – Foto: Naiade Bianchi / Entre Becos 2026 Origem do Samba Junino Surgido na década de 1970, o Samba Junino é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador. O reconhecimento foi oficializado por meio do Decreto Municipal nº 29.489/2018, publicado no Diário Oficial do Município (DOM) em 8 de fevereiro de 2018. Segundo o presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Fernando Guerreiro, este foi o primeiro bem cultural registrado como patrimônio imaterial da capital baiana. Em 2020, o Samba Junino passou a integrar o calendário oficial de eventos de Salvador, que instituiu o dia 17 de abril como o Dia Municipal do Samba Junino.Segundo o professor de história Vitor Porto, uma das principais características do Samba Junino é o chamado “samba duro”, estilo que, na perspectiva dele, marca a identidade dessa manifestação cultural. “O Samba Junino possui um ritmo acelerado, marcado pelo samba duro, também conhecido como samba urbano. Entre suas principais características estão a dança coletiva, com forte balanço corporal, passos rápidos, giros e deslocamentos em grupo; os arrastões pelas ruas e apresentações nos bairros; a presença marcante da percussão; e letras que abordam o cotidiano, as festas populares e a identidade das comunidades onde essa tradição se desenvolve”, explica. Além disso, o mestre em História, Cultura e Memória pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), analisa os impactos do reconhecimento do Samba Junino como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador. “O reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial fortaleceu a valorização do Samba Junino como expressão cultural importante da cidade. Isso ajuda na preservação da tradição, incentiva políticas públicas, editais de apoio, pesquisas e aumenta a visibilidade dos grupos e mestres da cultura popular. Além disso, combate a invisibilização dessa manifestação historicamente ligada às comunidades periféricas e negras de Salvador”, destacou. Em consonância com o pesquisador, o estudo Etnomusical desenvolvido pela professora doutora Ângela Lühning e pelo mestre Gustavo de Melo, intitulado “Samba Junino: o samba duro e o São João de Salvador”, adiciona que o Samba Junino tem suas raízes no samba de caboclo praticado nos terreiros de Candomblé. A manifestação surgiu a partir dos arrastões que percorriam bairros como Engenho Velho de Brotas, Engenho Velho da Federação, Federação, Fazenda Garcia, Tororó e Nordeste de Amaralina, entre outros territórios de Salvador. Reportagem de Bruna Rocha Edição de Cleber Arruda e Rosana Silva Fotografia de Naiadi Bianchi
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