0

Entre os artistas que iluminam os palcos e os corações durante o carnaval, Tonho Matéria brilha como um verdadeiro ícone da música baiana. Com uma carreira marcada por experiências inesquecíveis e uma contribuição ímpar para a preservação da cultura afro-brasileira, Tonho Matéria é mais do que um cantor e compositor; é uma voz que ecoa pela história e pela alma de Salvador.

Nesta entrevista exclusiva, ele compartilha conosco suas reflexões e memórias sobre sua passagem pelo Carnaval de Salvador 2024. Das ruas do Furdunço ao fervor do Circuito Osmar, passando pela energia única do Pelourinho, Tonho Matéria nos convida a mergulhar em sua jornada musical e cultural, revelando os segredos e as inspirações que impulsionam sua arte.

Reprodução da rede social

Entrevista:

  1. Tonho Matéria, você começou sua carreira musical em um Carnaval da Bahia. Como essas experiências iniciais moldaram sua trajetória como artista?

Tonho Matéria: Pois é, minha vida músical já começa dentro de casa, e foi com minha mãe Dona Eufrosina, que conheci o carnaval. Além das varias festas de largo (festas populares) que temos em Salvador. Minha mãe vendia acarajé nestes lugares e foi exatamente nestes espaços que me influenciei para a música. Quando gravei meu primeiro LP intitulado Tonho Matéria, pela gravadora BMG Ariola, o meu primeiro sucesso carreira solo, foi a música Desejo Egotismo, conhecida como Tchau Galera, com o sucesso desta canção em 1989, eu gravei um vídeoclip produzido por Alvaro Gomes, mais eu nunca vi este material pronto.

  1. Você foi pioneiro ao levar a Capoeira aos palcos em shows. Como essa expressão cultural influencia sua música e suas apresentações durante o Carnaval?

Tonho Matéria: O Terreiro de Candomblé de Dona Tide e a capoeira, foram os primeiros instrumentos de sociabilidade que tive na minha vida. O som dos tambores me impulsionaram a ser músico, a tocar percussão na minha comunidade que fica no fundo do Bairro Pau Miúdo, que é as Pedreiras, divisa com os bairros Cidade Nova e Barros Reis – Sertanejo. Ali, aprendi a conhecer de fato como ser um capoeirista, e foi o Seu Popó, um vizinho de minha mãe, que me apresentou a capoeira por meio dos LPs dos mestres Caiçara e Suassuna. Então, quando comecei a cantar nos Blocos Afro, eu levei a capoeira para o palco e isso começo no Ara Ketu na década de 80 na Guiana Francesa. E até hoje está em tudo que faço. Impossível ter minha música se a capoeira não se fizer presente.

  1. Qual é a importância do Carnaval de Salvador em sua carreira e na cena musical baiana como um todo?

Tonho Matéria: Carnaval é a nossa vida. Sem esta estrutura de felicidade, a gente não consegue viver feliz durante o ano inteiro. Para a minha carreira, o carnaval é aonde busco espaços para divulgar minhas músicas e apresentar a minha existência como artista negro nesta cidade chamada de cidade da música, até se propagar em espaços e lugares do Brasil e do mundo. Não é fácil assim, porque são inúmeros artistas, e cada um lutando por seus ideais. Já para a cena musical baiana, na minha visão, o carnaval é o que alimenta as industrias de modo geral. Todos os segmentos esperam este momento mágico para ampliar e fortalecer suas vendas e seus negócios (produtos e serviços).

  1. Como foi se apresentar no Furdunço durante o Carnaval de 2024?

Tonho Matéria: Com certeza fiz um grande desfile este ano e a entrega foi acima do esperado. Com um grandioso repertório recheado de músicas clássicas de minha autoria e da autoria de amigos compositores. Porém, com a idade que tenho de música nesta cidade, acho que não devo mais ser contemplado por editais para tocar nos eventos públicos, isso cria em nós artistas veteranos, um acabrunhamento. Mas, eu gostei de fazer o som. Me faz ficar vivo.

  1. Você se apresentou no Circuito Osmar com seu Bloco da Capoeira/Afro Mangangá. Como foi a recepção do público e qual é a mensagem que você busca transmitir através desse bloco?

Reprodução da rede social

Tonho Matéria: O Bloco da Capoeira foi idealizado em 2001, quando comecei a perceber que alguns grupos de empresários não estavam mais contratando os artistas independentes para desfilarem em blocos de axé. Nos anos de 1999 e 2000 vi o bloco Gunga com alguns mestres tocando berimbaus e foi ai que tive a ideia de criar a Mangangá. Levei oito anos tentando inseri-lo no carnaval e como não obtive sucessos, propus para Mizael Tavares, que era naquela época, o Presidente da Emtursa e empresário de Netinho, que colocasse a capoeira como tema no carnaval. Então, em 2008 conseguimos inserir o desfile do bloco como projeto especial. E a partir daí, passei a profissionalizar ainda mais a entidade. Hoje, o Bloco da capoeira é uma referência cultural não só para o carnaval de Salvador, mais para outros carnavais no mundo. Desfilamos com mais de 3 mil componentes e a cada anos, pessoas de diversos lugares, vem para a quinta feira de carnval somente para assistir ao desfile do Bloco da Capoeira. Na segunda feira de carnaval no circuito Batatinha, o bloco desfila com a versão Infantil – o Capoeirinha. Este ano, o Capoeirinha desfilou com mais de 500 pessoas.

Agora em março, estarei indo para a cidade de Thessaloniki na Grécia, realiar mais uma edição do mini desfile do Bloco da Capoeira lá.

Então, a mensagem é que o Bloco da Capoeira é do mundo.

  1. O Pelourinho é um dos locais mais emblemáticos de Salvador. Como foi a energia e a interação com o público durante sua apresentação na Praça Quincas Berro D’Água?

Tonho Matéria: Me colocaram para tocar às 16h, o Pelourinho ainda estava vazio, as praças vazias. Mesmo assim cantei como todo e qualquer profissional que se preza faz. Dentro de mim havia um vazio e uma tristeza. Mas minha conta estava feliz e fez sua tarefa da forma que tinha que ser feita. Algumas pessoas que souberam que eu estava tocando naquele horário, foram lá me ver. Foi legal vê-los ali e percebi que nunca estarei sozinho. Essas pessoas me curaram.

  1. Ao longo de sua carreira, você gravou mais de 500 canções e teve milhões de discos vendidos em todo o mundo. Como você equilibra a tradição e a inovação em suas composições, especialmente durante o Carnaval?

Tonho Matéria: Sim, são inúmeras canções gravadas e mesmo assim tenho que provar o tempo todo que existo. Minha música sempre foi moderna, tudo que produzir durante esse meu percurso de vida musical, está como elementos sonoros e rítmicos em diversos trabalhos que hoje se falam ser inovadores. Mas, quem é musico de verdade vai entender o que estou dizendo.

No carnaval de Salvador não tem nada de novo. É tudo tradicional com supostas timbragens eletrônicas, o que também não é nada de novo. Bob Marley na música Could You Be Loved, Fela Kuti com a sua criação do Afrobeat, Banda Mel e Banda Reflexus, Ademar da Furtacor já fizeram tudo isso que continuam fazendo. As únicas coisas de novo que tem no carnaval, são pessoas novas e músicas novas. Mas o comportamento tecnológico, tudo já é antigo.

  1. Quais são seus planos e projetos futuros após o Carnaval de Salvador 2024? Há alguma novidade que você pode compartilhar conosco sobre sua carreira e próximos trabalhos?

Tonho Matéria: Continuar na busca e preservar tudo que tenho enquanto matriz. Disso não abro mão. Não se faz nada de novo se não se alimenta do sagrado. Agora é manter a agenda que está crescendo a cada momento e continuar produzindo músicas novas. Meu plano agora, é produzir um novo trabalho e colocá-lo nas plataformas digitais para salvaguardar este material. Irei produzir dois projetos. Um na linhagem do samba reggae com capoeira e o outro em homenagem ao meu pai Dão, que o tempo todo cantava samba de rodas dentro de casa. O projeto será chamado de PagoDão, em celebração a ele.

Reprodução da rede social

Esse artista é mais do que um nome conhecido na cena musical baiana; ele é uma verdadeira lenda viva, cuja trajetória se entrelaça com as raízes culturais da Bahia e do Carnaval de Salvador.

Mbappé no Real Madrid: o que falta para o acerto

Artigo anterior

“Experiência incrível” | 7Kssio nos conta como foi o seu Carnaval 2024

Próximo artigo

Você pode gostar

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais sobre Cultura