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CompartilheCompartilhe 0 O futebol europeu vende há anos a ideia de que os conglomerados multiclubes chegaram para revolucionar o esporte. Estrutura global, intercâmbio técnico, investimentos milionários, desenvolvimento de jovens talentos. No papel, parece perfeito. Na prática, porém, a queda do Girona FC escancara uma discussão cada vez mais necessária: afinal, o modelo do Grupo City fortalece os clubes parceiros ou apenas os transforma em plataformas descartáveis dentro de um império financeiro? O caso do Girona é emblemático. Há apenas dois anos, o pequeno clube catalão era tratado como a grande sensação da Espanha. Brigou na parte de cima de La Liga, encantou a Europa com um futebol ofensivo, conquistou vaga histórica na Champions League e virou exemplo do “sucesso” do City Football Group. Hoje, a realidade é brutalmente diferente. Neste sábado, o Girona confirmou seu rebaixamento para a segunda divisão espanhola após empatar em casa com o Elche. Um clube que recentemente enfrentava Real Madrid e Barcelona na elite europeia agora desaba esportivamente em uma velocidade assustadora. O colapso não aconteceu por acaso. O Girona revelou jogadores, valorizou ativos e serviu como laboratório esportivo do conglomerado. Entre os principais exemplos está o brasileiro Savinho, protagonista da campanha histórica da equipe e posteriormente absorvido pelo Manchester City após atingir valorização máxima. O clube espanhol perdeu seu principal desequilibrador técnico e viu seu elenco ser desmontado pouco depois do auge. E é justamente aí que nasce a grande crítica ao modelo multiclubes. O discurso oficial fala em “sinergia”, “crescimento compartilhado” e “desenvolvimento global”. Mas a prática muitas vezes parece outra: clubes periféricos trabalham, revelam, valorizam talentos e constroem projetos competitivos temporários para alimentar o centro do sistema. Quando o ativo explode, ele sobe na cadeia alimentar. O clube menor fica com o vazio. É impossível não enxergar uma analogia histórica desconfortável. Como antigas potências coloniais que extraíam riquezas de territórios explorados, o sistema moderno do futebol globalizado parece repetir uma lógica semelhante: retirar o máximo valor possível, concentrar poder no topo e deixar para trás estruturas fragilizadas. Talvez o Girona seja hoje a prova mais dolorosa disso. E para o torcedor do Esporte Clube Bahia, o alerta é inevitável. Porque a realidade atual do Bahia começa a dialogar perigosamente com essa mesma lógica. O clube saiu de décadas de sofrimento esportivo para viver uma explosão de esperança com a chegada do Grupo City. Depois de mais de 20 anos, o Bahia voltou a sonhar grande, conquistou vaga na Libertadores e passou a vender a ideia de um novo patamar competitivo. O discurso era sedutor: profissionalização, investimentos, estabilidade e protagonismo continental. Mas o que se vê agora é um cenário muito distante da promessa inicial. O Bahia acumulou eliminações vexatórias nas competições da temporada, apresentou um futebol inconsistente, perdeu identidade em diversos momentos do ano e passou a conviver novamente com o medo que parecia enterrado: a sombra do rebaixamento. A expectativa de uma Libertadores histórica rapidamente deu lugar à frustração, à instabilidade e à sensação de que o clube se tornou apenas mais uma peça dentro de um sistema global de interesses. E a pergunta começa a ecoar em Salvador da mesma forma que ecoa em Girona: o projeto esportivo realmente pertence ao clube… ou apenas atende à lógica do conglomerado? Porque quando decisões estratégicas parecem atender mais ao ecossistema do grupo do que às necessidades imediatas do time, o torcedor inevitavelmente perde o sentimento de pertencimento. O clube deixa de ser protagonista da própria história para se transformar em ativo operacional. O Girona hoje cai para a segunda divisão. E sua queda ultrapassa o futebol espanhol. Ela serve como aviso para todos os clubes inseridos nesse modelo de rede globalizada. Inclusive o Bahia. Afinal, no futebol moderno, talvez o maior risco não seja apenas perder jogos. O maior risco pode ser perder a própria identidade.
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