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CompartilheCompartilhe 0 A recente crise política que paralisou temporariamente os trabalhos na Câmara dos Deputados revelou um inusitado ponto de convergência entre bolsonaristas e o Centrão: a blindagem dos parlamentares frente ao Judiciário. O acordo que pôs fim ao motim entre deputados foi costurado no gabinete de Arthur Lira (PP-AL), com apoio de líderes do PP, PSD, União Brasil e do PL, e culminou na definição de uma pauta voltada a limitar a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre congressistas. Na lista de prioridades para votação, articulada à revelia do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), estão: o fim do foro privilegiado, com redirecionamento de processos para o Superior Tribunal de Justiça (STJ); a exigência de autorização do Legislativo para que um parlamentar seja investigado; a restrição de prisões apenas para casos de flagrante ou crime inafiançável. Embora tenha tentado manter a autoridade, Motta saiu fragilizado, sendo considerado o maior derrotado da crise. A rebelião escancarou sua falta de controle sobre a Casa e o deixou vulnerável diante de um grupo que inclui até correligionários de seu padrinho político, Arthur Lira. “A presidência da Câmara é inegociável. O presidente da Câmara não negocia prerrogativa com oposição, governo, ninguém”, declarou Motta. Mas, na prática, os líderes decidiram sem ele. O líder do PL, Sóstenes Cavalcante, foi direto: “Há um compromisso dos líderes dos partidos. Vamos pautar, sim, o fim do foro privilegiado e a anistia [aos golpistas de 8 de janeiro]”, afirmou, pedindo desculpas a Motta por não tê-lo incluído nas tratativas. No Senado: resistência a pressões Enquanto isso, no Senado, o presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) enfrentou e conteve o protesto de bolsonaristas que pressionavam pela pauta do impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes. Após senadores que haviam se acorrentado à mesa diretora recuarem, a Casa aprovou, em votação simbólica, um projeto de lei que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até dois salários mínimos — uma vitória silenciosa para o governo federal. Apesar da coleta de 41 assinaturas para pedir o impeachment de Moraes, Alcolumbre foi categórico: “Nem com 81 assinaturas vou pautar o impeachment de um ministro do Supremo.” A declaração irritou os bolsonaristas, e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) reagiu com ameaça dupla: “Agora serão dois impeachments” — referindo-se a Moraes e ao próprio presidente do Senado. Lula em articulação com Kassab Em meio à turbulência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu, fora da agenda oficial, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, para um almoço no Palácio da Alvorada. O encontro político, paralelo à visita do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) a Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, revela os bastidores da disputa por espaço político de olho em 2026. Durante a conversa, Lula criticou o bloqueio de pautas de interesse do governo no Congresso e o apoio da oposição às sanções comerciais dos EUA contra o Brasil, apontando que isso já vem sendo percebido negativamente em pesquisas de opinião. Apesar da aproximação, Kassab reiterou que o PSD terá candidatura própria à presidência e que qualquer aliança eleitoral está fora de discussão neste momento. Conclusão A semana revelou um Congresso dividido em seus métodos, mas unido em seu interesse: proteger-se da atuação do Judiciário. Enquanto a Câmara se articula para alterar regras em benefício próprio, o Senado mostra disposição para conter arroubos autoritários — ainda que sob forte pressão. Ao mesmo tempo, Lula trabalha para manter articulações com figuras-chave do centro político, mesmo em um ambiente institucional cada vez mais tensionado.
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