Mais de 400 mulheres devem concorrer a cargos eletivos pela Bahia nas eleições de 2026. São 418 candidatas registradas, número que coloca o estado na quarta posição do ranking nacional de participação feminina em valores absolutos. O avanço prático, porém, segue lento: em quatro anos, o índice de candidaturas femininas subiu apenas cerca de um ponto percentual, de 33,10% em 2022 para 34,72% neste ano.
O cenário acompanha a média nacional. Dados do Tribunal Superior Eleitoral apontam que as mulheres representam cerca de 34,8% das candidaturas registradas em todo o país — percentual que flutua em torno de um terço em praticamente todos os estados e nunca alcança a marca de 40%.
Cota virou teto, não piso
O número não é casual. A cota de gênero fixada pela legislação eleitoral estabelece mínimo de 30% e máximo de 70% de candidaturas para cada gênero, regra que também vale para a divisão de recursos do fundo eleitoral e do tempo de propaganda. Na prática, o que era incentivo se converteu em patamar-limite para o preenchimento de vagas femininas nas chapas.
Na Bahia, cinco legendas superaram a marca de 40% de candidaturas femininas: União Popular (UP), Podemos, Cidadania, PCdoB e PCO. O UP é o único com maioria feminina — cinco mulheres, ou 55% do total. Entre os 26 partidos com filiados registrados no estado, 18 ficaram na faixa entre 30% e 38%, e três abaixo dos 30%: PT, Progressistas e Democracia Cristã. Em federações, os percentuais são calculados de forma conjunta, o que altera o enquadramento de algumas siglas.
O contraste fica mais nítido quando se olha para o resultado das urnas. Em 2022, 569 mulheres disputaram cargos na Bahia, mas apenas 14 foram eleitas — 13,33% do total de eleitos no estado. Enquanto isso, as mulheres formam 53% do eleitorado baiano apto a votar, um contingente de 5,9 milhões de pessoas.
Para a professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Mulheres, Gênero e Feminismo da Ufba, Vanessa Cavalcanti, trata-se de um dilema central da democracia brasileira. “Não adianta somente quantidade de candidaturas. Elas precisam chegar aos mandatos, efetivação de projetos e acompanhamento ao longo do percurso”, afirma.
A pesquisadora aponta ainda que o repasse tardio de recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha a candidaturas de grupos sub-representados compromete a viabilidade logística e competitiva das campanhas, e defende formação, financiamento e acompanhamento pós-eleitoral como caminhos para mudar o quadro.

