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CompartilheCompartilhe 0 Três dias após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmar o primeiro ataque militar em território venezuelano, o presidente Nicolás Maduro evitou comentar diretamente o episódio. Questionado pela imprensa, limitou-se a afirmar que o assunto poderia ser tratado “em alguns dias”. Apesar do tom cauteloso adotado pelo governo venezuelano, a escalada militar na região é vista com preocupação por países vizinhos e especialistas, diante do risco de impactos políticos, humanitários e de segurança em todo o continente. Vizinho direto da Venezuela, com cerca de dois mil quilômetros de fronteira, o Brasil acompanha o agravamento da crise em meio a um clima de apreensão. O temor de que o conflito evolua para uma invasão terrestre motivou, em meados de dezembro, uma longa conversa telefônica entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e Maduro. Autoridades brasileiras avaliam que uma das consequências mais imediatas do conflito pode ser o agravamento da crise humanitária, com aumento da pressão migratória nas fronteiras. Desde 2015, quase 500 mil venezuelanos entraram no Brasil. Dados da Agência das Nações Unidas para os Refugiados, a Acnur, indicam que a Venezuela possui atualmente o maior número de refugiados no mundo, com cerca de 6,3 milhões de pessoas fora do país, superando inclusive nações que enfrentaram guerras civis recentes, como a Síria. Segundo especialistas, o agravamento do conflito tende a intensificar ainda mais esse fluxo migratório. “O maior risco de todos é a piora da situação humanitária, que já está acontecendo, mas que certamente vai se intensificar”, afirmou Carolina Pedroso, em entrevista à BBC. Ela lembra que estados como Roraima e Amazonas já enfrentam tensões sociais provocadas pela sobrecarga dos serviços públicos e por episódios de xenofobia. O cenário se repete em outros países da região, como Colômbia e Peru, que lideram o acolhimento de refugiados e migrantes venezuelanos. Além do impacto humanitário, analistas alertam para riscos à segurança regional. A professora Monica Herz, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, destaca que um conflito interno ou uma guerra civil na Venezuela traria sérios desafios para o controle das fronteiras brasileiras, ampliando ameaças relacionadas ao crime transnacional, ao tráfico de drogas e à circulação de armas. Desde que anunciou uma operação de combate ao narcotráfico no mar do Caribe, os Estados Unidos enviaram mais de 20 navios de guerra para áreas próximas ao território venezuelano. Nesta semana, bombardeios contra embarcações venezuelanas suspeitas de envolvimento com o tráfico teriam ultrapassado a marca de cem mortes. Washington afirma que a pressão militar tem como objetivo combater o narcotráfico, enquanto Caracas sustenta que se trata de uma tentativa de derrubar o governo. Na última terça-feira (30), o Comando Sul dos EUA informou que realizou ataques contra mais três embarcações suspeitas de tráfico em águas internacionais. Segundo autoridades americanas, oito pessoas abandonaram os navios e permanecem desaparecidas. Em novembro, Trump já havia sinalizado a possibilidade de ataques terrestres e autorizado operações da CIA em território venezuelano. Maduro, por sua vez, afirma que o sistema defensivo do país garante a integridade territorial e declarou que a população está em segurança. Há suspeitas de que uma das operações americanas tenha ocorrido em Maracaibo, no oeste da Venezuela, em uma área associada à produção de drogas, hipótese levantada pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro. Apesar da tensão, Maduro reiterou disposição para dialogar com os Estados Unidos sobre um acordo de combate ao narcotráfico, afirmando que não conversa com Trump desde 21 de novembro. Especialistas, no entanto, avaliam que a presença de porta-aviões e tropas norte-americanas no Caribe rompe com a tradição latino-americana de não beligerância e coloca em xeque décadas de esforços para manter a região como uma zona de paz. Para Monica Herz, embora uma invasão nos moldes da guerra do Iraque em 2003 seja improvável, os ataques recentes representam uma forte demonstração de poder dos Estados Unidos e reforçam disputas por influência na América Latina, em um contexto de enfraquecimento do Direito Internacional e de crescente instabilidade regional.
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