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Depois de uma sequência de boas notícias que havia interrompido a queda de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governo federal voltou à defensiva diante da operação policial que deixou 121 mortos — entre eles quatro agentes de segurança — nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A ação contra o Comando Vermelho reacendeu o debate sobre segurança pública, reforçou o discurso da direita em torno do governador Cláudio Castro (PL) e ofuscou pautas positivas do Planalto, como a relação com os Estados Unidos e a isenção do Imposto de Renda para os mais pobres.

Diferentemente de discursos anteriores da esquerda, Lula evitou críticas diretas à operação e absteve-se de usar termos como “chacina” ou “massacre”. Segundo informações do colunista Lauro Jardim, a nota oficial de 138 palavras divulgada pelo presidente levou horas para ser redigida e passou por diversas revisões, refletindo a cautela do governo diante da repercussão do caso.

Pesquisas recentes ajudam a explicar o tom comedido do Planalto. Levantamento do Datafolha, divulgado no sábado, mostra que 57% dos moradores do Rio concordam com a declaração de Cláudio Castro de que a operação “foi um sucesso”, enquanto apenas 39% discordam total ou parcialmente. Já pesquisa Genial/Quaest, publicada no domingo, aponta que 64% dos fluminenses aprovam a ação policial, e apenas 27% a desaprovam. Na esteira desse apoio, a aprovação de Castro subiu de 43% em agosto para 53% em outubro, enquanto a desaprovação ao governo Lula no estado oscilou de 62% para 64%.

Buscando reagir à pressão e demonstrar iniciativa no combate ao crime organizado, Lula assinou na sexta-feira um projeto de lei que endurece a punição a facções criminosas. O texto, que será enviado ao Congresso Nacional, prevê até 30 anos de prisão para integrantes de organizações criminosas e autoriza a infiltração de policiais em empresas suspeitas de lavar dinheiro.

Paralelamente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou que o governo do Rio preserve toda a documentação da operação, incluindo laudos periciais, e garanta acesso à Defensoria Pública. Moraes deve visitar o estado nesta segunda-feira para se reunir com o governador e autoridades da segurança fluminense, a fim de avaliar os desdobramentos da ação.

Enquanto o debate político se intensifica, especialistas alertam para o agravamento da crise social nas comunidades dominadas pelo tráfico. Nessas áreas, o Comando Vermelho tem ampliado o controle econômico e transformado os territórios em fontes de renda, cobrando taxas sobre serviços como gás, transporte e internet, além de extorquir comerciantes sob ameaça.

Em coluna publicada neste domingo, a jornalista Mariliz Pereira Jorge destacou o dilema que permeia a reação popular à violência: “Parte de quem aplaudiu não está vibrando por ideologia, está gritando por desespero. Foi uma chacina, sim. Mas, se queremos mudar o resultado, é preciso entender por que tanta gente enxerga naquele tipo de barbárie um alívio momentâneo.”

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