Quando a vida perdeu as cores
Não sei quando aconteceu.
Mas a vida foi ficando cinza.
Na Bahia, clássico já teve vermelho e preto misturados ao azul, vermelho e branco. Bahia e Vitória dividiam arquibancadas. Havia provocação, paixão, rivalidade.
Hoje, para impedir a violência, tiramos uma das torcidas.
Em vez de aprendermos a conviver com a outra cor, preferimos apagá-la.
E não foi só no futebol.
Os carros já foram amarelos, verdes, azuis, vermelhos. As casas tinham paredes coloridas, telefones coloridos, azulejos, estampas.
Hoje quase tudo é branco, preto, bege ou cinza.
Chamamos isso de clean.
De elegante.
De moderno.
Talvez estejamos fazendo o mesmo com a vida.
Até a política ganhou duas cores.
De um lado, o vermelho virou sinônimo de PT.
Do outro, verde e amarelo, cores de todos nós, passaram a ser associados à oposição.
Vestir uma cor virou declaração.
Uma bandeira que deveria unir passou a separar.
E o mais cruel é que até o arco-íris — justamente a imagem de várias cores coexistindo — passou a despertar intolerância, preconceito e violência.
Estamos desaprendendo a conviver.
No estádio, eliminamos a outra torcida.
Na política, transformamos o diferente em inimigo.
Na sociedade, ainda há quem queira apagar quem ama, pensa ou vive diferente.
Talvez o problema nunca tenha sido termos cores demais.
Talvez seja nossa incapacidade de aceitar que a cor do outro não apaga a nossa.
Estamos deixando os carros cinza.
As casas bege.
Os estádios de uma cor só.
A política dividida em duas.
E as pessoas cada vez menos tolerantes às cores umas das outras.
No fim, sobra o cinza.
E cinza também é cor.
A cor do céu sem sol.
Da fotografia sem vida.
Da cinza depois do fogo.
E do luto depois que a intolerância vence.
A vida não precisa de menos cores.
Precisa, urgentemente, que a gente reaprenda a viver com todas elas.

