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Plano de ACM Neto tem indícios de IA e vídeos genéricos reforçam críticas

Uso de inteligência artificial não é o problema; questionamento surge quando a tecnologia parece substituir o trabalho de formular propostas e construir uma relação verdadeira com aliados e eleitores**

Viajando de Novo

O plano de governo apresentado por ACM Neto (União Brasil) para a disputa pelo Governo da Bahia entrou no centro de uma nova controvérsia. Uma perícia divulgada pela coluna de Mônica Bergamo, na *Folha de S.Paulo*, apontou **56,7% de probabilidade de origem sintética** no documento de 214 páginas — sinal de que partes do conteúdo podem ter sido redigidas ou reescritas com auxílio de inteligência artificial.

É importante esclarecer: o resultado não significa que exatamente 56,7% do plano tenha sido produzido por uma máquina. Trata-se de uma estimativa baseada nos padrões encontrados no texto. Segundo a análise, os diferentes trechos apresentaram índices que variaram de 0% a 91% de probabilidade de origem sintética. Dos 50 blocos examinados, 12 ultrapassaram a marca de 80%.

Os maiores índices teriam aparecido justamente em áreas estratégicas para o futuro da Bahia, como segurança pública, educação, desenvolvimento econômico, turismo, cultura, economia criativa e transformação digital. A perícia também identificou repetição incomum de estruturas argumentativas e de expressões semelhantes ao longo dos capítulos. [As informações foram publicadas originalmente pela Folha de S.Paulo](https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/08/plano-de-governo-de-acm-neto-tem-567-de-probabilidade-de-uso-de-ia-diz-pericia.shtml).

A própria análise reconhece, contudo, que determinados padrões podem decorrer tanto do uso de ferramentas generativas quanto de um processo humano de padronização editorial. Portanto, o parecer aponta indícios, não uma prova absoluta de que as propostas tenham sido criadas por inteligência artificial.

Procurada, a assessoria de ACM Neto admitiu o uso da tecnologia, mas afirmou que ela teria sido empregada somente na revisão, correção ortográfica e checagem do documento. A campanha sustenta que todas as ideias e propostas foram elaboradas sem IA.

O problema não é usar inteligência artificial

Utilizar inteligência artificial para revisar, organizar ou aprimorar um texto não constitui, por si só, qualquer irregularidade. A ferramenta já faz parte da rotina de empresas, profissionais e órgãos públicos.

O questionamento político surge quando a tecnologia deixa de ser apoio e passa a transmitir a impressão de que está substituindo o trabalho que se espera de um candidato: estudar os problemas do estado, ouvir a população, reunir especialistas, formular soluções próprias e explicar com clareza como pretende executá-las.

Um plano de governo não deveria ser apenas um documento extenso e bem diagramado. Ele representa um compromisso público com milhões de baianos. Precisa demonstrar conhecimento da realidade, prioridades bem definidas, metas possíveis e, sobretudo, autoria política.

Se o candidato deseja governar a Bahia, é razoável esperar que participe efetivamente da construção do projeto que apresenta à população.

Vídeos genéricos ampliaram a percepção de distanciamento

A controvérsia envolvendo o plano ocorre poucos dias depois de ACM Neto virar alvo de críticas e memes por causa de vídeos padronizados destinados a candidatos de sua base política.

Reportagens apontaram que uma mesma mensagem gravada pelo ex-prefeito foi adaptada para aparecer ao lado de diferentes aliados. Em algumas versões, a ausência de contato visual e de interação natural chamou atenção. ACM Neto também não mencionava o nome do candidato que aparecia ao seu lado, reforçando a impressão de que se tratava de uma manifestação genérica de apoio.

Alguns veículos atribuíram a montagem ao uso de inteligência artificial. ACM Neto negou essa versão. O candidato afirmou que as pessoas foram gravadas e que a tecnologia foi utilizada para “multiplicar” a mensagem, mas declarou que não havia IA no material. Até o momento, não foi apresentada uma perícia técnica pública capaz de determinar se houve geração por inteligência artificial ou apenas composição e edição convencional de imagens. [A repercussão e a resposta de ACM Neto foram registradas por veículos baianos](https://aquisopolitica.com.br/acm-neto-reage-a-criticas-sobre-video-com-candidatosnao-tem-nada-de-ia/).

Ainda assim, o efeito político permanece. Ao substituir mensagens individuais por uma gravação reaproveitada, a campanha transmitiu a ideia de apoio fabricado em série — como se reservar alguns minutos para gravar com cada aliado fosse um esforço excessivo.

Tecnologia ou atalho?

Os dois episódios, embora diferentes, alimentam a mesma dúvida: a tecnologia está sendo usada para melhorar o trabalho político ou para evitar que ele seja feito?

Não se pode afirmar, apenas com base em uma perícia probabilística e em vídeos editados, que ACM Neto não queira trabalhar. Essa seria uma conclusão sobre uma intenção pessoal que os fatos disponíveis não permitem comprovar. Mas é legítimo questionar a disposição demonstrada por uma campanha que apresenta um plano com fortes indícios de redação sintética e, simultaneamente, distribui manifestações genéricas de apoio aos próprios candidatos.

A Bahia tem problemas complexos demais para receber soluções automáticas. Inteligência artificial pode corrigir palavras, organizar informações e acelerar tarefas. O que ela não pode substituir é compromisso, presença, escuta e responsabilidade política.

Quem pretende governar o estado precisa demonstrar que está disposto a realizar o trabalho — e não apenas a apertar o botão que o simula.

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