Ao atribuir o resultado a ataques, mentiras e uso da máquina e afirmar que Jerônimo Rodrigues não teve mérito na vitória, ACM Neto escolheu uma reação que abre espaço para discutir fair play, coerência política e os limites de uma estratégia eleitoral que tentou manter distância da polarização nacional.
ACM Neto perdeu novamente para Jerônimo Rodrigues. Desta vez, não houve segundo turno na Bahia. Com 100% das urnas apuradas, o governador petista foi reeleito com 55,80% dos votos válidos, contra 43,73% do ex-prefeito de Salvador.
É uma diferença suficientemente clara para dispensar interpretações sobre quem venceu a eleição.
A discussão política começa, porém, quando se observa a reação do derrotado.
Depois do resultado, ACM Neto atribuiu sua derrota a “mentiras, ataques e falsidades”, falou em “uso da máquina” e foi além ao tratar do adversário: afirmou que o governador “não teve méritos” no resultado.
É justamente aí que surge uma questão que vai além de PT, União Brasil, esquerda ou direita: qual deve ser a postura de quem perde uma eleição democrática?
Criticar o adversário é legítimo. Denunciar irregularidades, caso existam elementos para isso, também é. O que merece análise é transformar esses fatores na explicação da derrota e, principalmente, retirar do vencedor qualquer mérito político por um resultado obtido nas urnas.
Jerônimo Rodrigues venceu.
E venceu no primeiro turno.
Isso não significa dizer que sua administração esteja acima de críticas. Segurança pública, saúde, regulação, educação, infraestrutura e qualidade dos serviços públicos continuam submetidos ao escrutínio da sociedade e da oposição.
Reconhecer uma vitória eleitoral não equivale a aprovar um governo.
Mas existe uma diferença entre exercer oposição e negar ao adversário a capacidade política de construir a própria vitória.
O adversário também teve votos
Jerônimo não chegou aos 55,80% dos votos válidos por acidente.
O PT governa a Bahia desde 2007. Em 2026, conquistou nas urnas o direito de iniciar o sexto mandato consecutivo no estado. Pode-se criticar essa longevidade, questionar seus resultados administrativos e defender alternância de poder. Mas uma análise política séria precisa reconhecer que vinte anos de vitórias sucessivas também demonstram capacidade eleitoral, organização partidária, presença territorial e conexão com parcelas expressivas do eleitorado baiano.
Há ainda outro elemento impossível de ignorar: Lula.
A campanha de Jerônimo explorou intensamente sua associação com o presidente. Lula participou ativamente da disputa baiana e esteve diversas vezes em Salvador durante o ano eleitoral. A estratégia petista foi explícita: aproximar a eleição estadual da disputa nacional e reforçar a identidade entre Lula, Jerônimo e o projeto político que governa a Bahia.
ACM Neto escolheu outro caminho.
Durante a campanha, evitou confrontar diretamente Lula. Seu candidato presidencial declarado no primeiro turno era Ronaldo Caiado, mas Neto concentrou sua comunicação na eleição estadual e nas críticas ao governo Jerônimo.
Ao mesmo tempo, ganhou espaço nas redes o chamado **“LuNeto”**: o eleitor que pretendia votar em Lula para presidente e ACM Neto para governador.
Neto negou estimular o movimento. Em agosto, declarou publicamente que não incentivava o voto casado com Lula e reafirmou seu apoio a Caiado. Também afirmou que respeitava a liberdade dos eleitores para fazer combinações diferentes.
Esse registro é importante porque impede uma acusação simplista de que ACM Neto tenha oficialmente se apresentado como candidato de Lula.
Não se apresentou.
Mas também é fato que sua estratégia eleitoral procurou evitar um confronto frontal com o presidente justamente em um estado onde Lula possui enorme força eleitoral. A campanha de Neto buscou manter aberta a possibilidade de receber votos de eleitores lulistas que desejassem mudança no governo estadual.
Essa escolha política era legítima.
Mas produz uma questão de coerência depois da derrota.
Depois das urnas, “mudar o Brasil”
Na noite em que perdeu a eleição, ACM Neto afirmou que, para mudar a Bahia, seria necessário primeiro “mudar o Brasil”.
Também anunciou que iria a Brasília conversar com as lideranças do União Brasil sobre a posição do partido no segundo turno presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A declaração chamou atenção porque ocorreu imediatamente depois de uma campanha na qual Neto havia evitado transformar Lula em adversário central.
Há uma diferença entre contradição factual e contradição política.
Neto nunca declarou apoio a Lula. Portanto, não seria correto afirmar que abandonou um candidato que apoiava.
A questão é outra.
Durante a campanha estadual, a popularidade de Lula na Bahia era uma realidade eleitoral que Neto procurou administrar cuidadosamente. Depois da derrota, sua fala passou a vincular uma futura mudança na Bahia a uma mudança nacional justamente quando Lula enfrenta Flávio Bolsonaro no segundo turno.
A alteração de ênfase é evidente.
E merece ser questionada.
Se a disputa pelo governo da Bahia deveria ser julgada essencialmente pelos problemas estaduais, como Neto defendeu durante boa parte da campanha, por que depois da derrota a mudança da Bahia passou a depender da mudança do Brasil?
Essa é uma pergunta política legítima.
O problema do fair play
Existe também uma dimensão menos partidária e mais democrática nessa história.
Uma eleição não termina apenas com a contagem dos votos. Ela termina também com a maneira pela qual vencedores e derrotados recebem o resultado.
O vencedor precisa compreender que vitória eleitoral não significa autorização para governar sem fiscalização.
O derrotado, por sua vez, pode apontar erros, denunciar abusos e continuar fazendo oposição. Mas reconhecer que o adversário foi capaz de conquistar mais votos faz parte do jogo democrático.
É nesse ponto que a declaração de ACM Neto de que Jerônimo “não teve méritos” merece crítica.
Porque os números não exigem elogio ao vencedor, mas exigem reconhecimento da realidade eleitoral.
Foram 4,6 milhões de votos para Jerônimo Rodrigues.
Pode ter pesado Lula.
Pode ter pesado a estrutura partidária construída pelo PT em duas décadas de governo.
Pode ter pesado a presença de prefeitos e lideranças políticas.
Pode ter pesado a avaliação do governo.
Pode ter pesado a rejeição ao campo político adversário.
E podem ser discutidas, com provas, eventuais irregularidades cometidas durante a campanha.
Tudo isso cabe numa análise eleitoral.
O que parece difícil sustentar é que uma vitória de 55,80% dos votos válidos não contenha mérito político algum do vencedor.
Isso reduz uma eleição complexa a uma explicação conveniente para quem perdeu.
Duas derrotas pessoais e uma pergunta maior
Também é necessário corrigir uma confusão histórica frequente.
Esta não foi a quarta derrota pessoal de ACM Neto numa eleição para governador.
Neto disputou o governo da Bahia em 2022 e em 2026. Perdeu as duas vezes para Jerônimo Rodrigues.
O que existe é algo mais amplo e talvez politicamente mais relevante: o grupo que se opõe ao PT não consegue recuperar o governo baiano desde a vitória de Jaques Wagner em 2006.
Depois vieram as vitórias petistas de 2010, 2014, 2018, 2022 e agora 2026.
São seis eleições consecutivas.
Portanto, depois de mais uma derrota, talvez a questão mais produtiva para a oposição baiana não seja procurar exclusivamente fora de si as razões do resultado.
É perguntar por que, depois de duas décadas, ainda não conseguiu construir uma maioria estadual capaz de interromper o ciclo petista.
ACM Neto continua sendo uma liderança relevante da oposição baiana e recebeu mais de 3,6 milhões de votos em 2026. Isso não desaparece por causa da derrota.
Mas justamente por ocupar esse espaço, sua reação importa.
Uma oposição que pretende voltar ao poder precisa criticar o governo, apresentar alternativas e denunciar aquilo que considerar errado. Ao mesmo tempo, precisa compreender o eleitor que continua escolhendo o adversário.
Chamá-lo indiretamente de vítima de mentira, máquina ou manipulação pode ser insuficiente para explicar derrotas sucessivas.
Coerência também ganha eleição
A trajetória recente de ACM Neto revela uma dificuldade política concreta.
Em um estado fortemente lulista, ele tentou construir uma candidatura estadual capaz de ultrapassar a divisão nacional entre lulismo e bolsonarismo. Declarou apoio a Ronaldo Caiado, evitou confrontar Lula e procurou concentrar a eleição no desempenho do governo estadual.
Não funcionou.
Depois da derrota, passou a falar que é necessário mudar primeiro o Brasil para depois mudar a Bahia e sinalizou aproximação com o campo de Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial.
É uma escolha que ele e seu partido têm direito de fazer.
Mas escolhas políticas têm consequências e precisam guardar coerência com o discurso apresentado ao eleitor.
Se ACM Neto pretende continuar liderando a oposição baiana, talvez o desafio não seja simplesmente decidir de que lado ficará na eleição presidencial.
O desafio maior é explicar com clareza qual projeto político representa na Bahia independentemente de Lula ou Bolsonaro.
E há uma lição ainda mais elementar.
Na democracia, saber perder não significa gostar da derrota.
Significa reconhecer que, naquela eleição, o adversário convenceu mais eleitores.
Depois disso, começa a oposição.
E começa também a autocrítica.



muito boa análise da derrota e do derrotado